
É possível reconhecer um filho de pastor no momento exato em que ele nasce. Basta ir à maternidade e reparar na multidão de senhoras da SAF olhando pela vitrine ou dando um monte de babador que elas mesmas bordaram. A esposa do pastor, obviamente, tem que se mostrar super disposta em recebê-las e com aquele sorriso, para não ficar uma situação desagradável. Mas acaba sendo um momento gostoso, pois se percebe o amor da igreja pelo pastor e sua família.
No domingo após o nascimento de seu filho, o pastor e sua mulher têm certeza que ao entrarem no portão da igreja, aquele monte de mulheres, de todas as idades irá avançar em cima do bebê, só para ver como ele é ou está. E o pastor sabe também que se ele não for firme, ele não vai chegar nunca ao púlpito para começar o culto. Na hora do culto, quem está no banco da frente ou de trás da esposa do pastor, não para de se oferecer para segurar o bebê.
Não importa para quantas igrejas o pastor se mude, para quantas igrejas o pastor é convidado a pregar, sempre haverá mulheres inteiramente dispostas a segurar e cuidar de seu filho, como se ele fosse delas.
Quando o filho do pastor começa a crescer, ao mesmo tempo começa a indicar como será a reputação do próprio pai. Bem, de duas uma: ou vai ser aquele filho de pastor exemplar, que sabe a Bíblia tanto quanto o pai e que é um líder da UCP, depois UPA e ainda mais UMP ou vai ser aquele que o pai tem que pedir pros diáconos irem procurá-lo porque ele sumiu antes mesmo do culto ter começado, aquele que o pai tem que interromper a pregação para chamar sua atenção e pedir desculpas aos irmãos da igreja, aquele menino que envergonha os presbíteros e que os faz se perguntar como pode existir um filho de pastor assim. A saúde da vida ministerial do pastor depende muito de como será o perfil, a personalidade, o caráter, a índole de seu filho. E a saúde física e emocional dele também está em jogo. Até porque quem vai correr pelo pátio da igreja atrás do menino é ele. E quem vai ouvir as reclamações dos diáconos e presbíteros também é ele.
A questão é: e o fdp, o que sente? Qual é o peso dessa responsabilidade de ser O filho do pastor? Isso ajuda ou atrapalha a vida dele?
Geralmente filho de pastor é bem sociável ou pelo menos cumprimenta todo mundo. Não que ele goste de todo mundo, mas tem que aparentar que sim, afinal ele é o filho do pastor.
Quando o filho do pastor é muito tímido, é muito provável que as pessoas cheguem a ele. Por quê? Parece que todos querem saber como ele é, como se sente, e até mesmo o que acha da igreja. Se ele não vai a eles, eles vão a ele. É mais ou menos assim.
Algo realmente muito chato é que nas aulas da escola dominical ou em qualquer gincana bíblica, quando o professor faz a pergunta e ninguém sabe, todos os olhos caem sobre o fdp como se ele tivesse a obrigação de saber a Bíblia, só porque é filho de pastor. Ah, e geralmente ele é chamado para orar em todas as aulas. Pode ser apenas uma impressão, mas parece que o professor da escola bíblica também espera mais do pastorzinho. Tanto em comportamento quanto em conhecimento.
Saindo um pouco do domingo, durante a semana, todo bom pastor fica na igreja para estudar ou para conversar com irmãos que com certeza sempre aparecem por lá. E quem ele leva junto? O seu tão bem falado filho. A igreja vazia, aquele silêncio, um sol de torrar, o pai concentrado no escritório e o fdp sem saber o que fazer. Poxa, assim também fica difícil. Ou ele mexe nas coisas do templo ou fica parado sem fazer nada.
Quando o fdp se torna adolescente, parece que as cobranças mudam e aumentam relativamente. A partir daí ele tem que mudar de postura, ser mais responsável e de certa forma ser um exemplo aos outros adolescentes. Filho adolescente de pastor é uma criatura complicada. Ele sabe o peso que tem nas costas e ao mesmo tempo parece que ele não quer assumir esse peso propositalmente. Ele sabe que é obrigado a ter uma posição que influencie os outros para o bem. Por isso geralmente filho de pastor aparenta ser rebelde. É uma forma de autodefesa, uma demonstração de que ele não tem o dever de assumir o cargo. Isso é fato. E ele faz questão de mostrar isso primeiramente ao pai, o pastor da igreja. De certa forma, ser filho de pastor é uma responsabilidade injusta, pois ele já nasce com uma cobrança formada, sem ter culpa de nada. Muitos imaginam que por ser o filho do pastor, ele tem que ser ou aparentar um santo. Mas acaba acontecendo o contrário. E os problemas não ocorrem somente na igreja, mas intensamente na casa do pastor, que cobra do filho um comportamento exemplar. O pastor, na verdade se encontra numa linha bem dividida: o lado do filho, que ele bem entende, mas não aceita, e o lado da igreja, que ele tem que aceitar. A questão é que a igreja não enxerga nem o lado do pastor, nem muito menos o de seu filho. Eles querem ver tudo certo, tudo pronto e bonito, embora sempre haja algo para reclamar.
O lado bom da estória é que a maioria dos filhos de pastor consegue lidar com isso, então acabam cooperando para o bem da igreja e do próximo. Mas claro, sempre com uma pitada de cobrança e olhares feios quando erram em algum momento. É bom ser chamado para participar de todas ou quase todas as peças teatrais da igreja, organizar eventos aos sábados para as crianças, apoiar na organização dos acampamentos e muitas vezes ser popular mesmo sem ter feito nada para merecer.
O que também é muito bom é que praticamente em todos os domingos a família inteira do pastor é convidada para almoçar na casa de um irmão ou irmã da igreja. Após o culto da manhã eles sabem que vai ter comida diferente na casa em que foram convidados. E passam a tarde lá. Enquanto os pais conversam com os donos da casa (os homens sobre teologia e as mulheres sobre o passado, experiências como mães e casos engraçados do dia-a-dia), os filhos dos dois lados brincam, conversam e fazem aquela bagunça na rua. No final sempre sai alguém chorando. No final da tarde todos se preparam para voltar ao culto da noite. E o filho do pastor sabe que ele será um dos últimos a ir embora, o que o deixa feliz, já que vai poder ficar brincando até mais tarde no pátio da igreja.
Ser o filho do pastor não é uma brincadeira, nem um detalhe qualquer. Se exige maturidade e ás vezes ser o que não se é ou o que não se quer ser. Mas ao mesmo tempo traz crescimento e boas lembranças no futuro para aqueles que souberam lidar com isso. Sinceramente, creio que é mais difícil para o pastor ser pai do filho do pastor do que para o próprio filho do pastor ser filho do pastor. Por quê? Pergunta pro seu pai.
PS: Tratei aqui de experiências pessoais, mas espero que cada um se identifique com ao menos um aspecto descrito.
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Dedico esse artigo a todos os f. d. p. e seus pais, que sabem, entendem e passam por sitações semelhantes a estas. (Petterson Luis S. Reis)
(Transcrito e adaptado)
Fonte: obs-tetras.blogspot.com



Muito bom o texto! parabéns! F.D.P sofre mesmo!
Maasa!!! Ainda bem q não sou filho de pastor…
rsrsrs…